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Seminário Escola Superior do MPU e Escola Judicial do TRT-SC discute transição justa, empregos verdes e racismo ambiental

Florianópolis - O segundo momento do Seminário sobre o Impacto das Mudanças Climáticas no Mundo do Trabalho, promovido pela Escola Superior do MPU e a Escola Judicial do TRT-SC, ocorreu nesta quinta-feira (21/08), no período da tarde no Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região, e contou com painéis sobre transição justa, empregos verdes e racismo ambiental. O evento segue nesta sexta-feira (22/08), até o início da tarde, em formato híbrido.

O painel “Transição justa e empregos verdes”, contou com as palestras do Juiz do Trabalho Guilherme Guimarães Feliciano, da 1ª VT de Taubaté TRT-Campinas, da Professora Doutora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e da Procuradora Regional do Trabalho do MPT-SC, Márcia Cristina Kamei López Aliaga, Secretária Nacional de Integração e Apoio à Atividade Pericial do Gabinete do Procurador-Geral do Trabalho. Os trabalhos foram moderados pela Juíza do Trabalho Desirré Dornelles de Ávila Bollmann, da 2ª Vara do Trabalho (VT) de Tubarão.

A partir da esquerda: Márcia Aliaga, Dornelles Bollmann e Regina Rodrigues, juntamente com Guilherme Feliciano (on-line), apresentaram o painel sobre transição justa e empregos verdes
A partir da esquerda: Márcia Aliaga, Dornelles Bollmann e Regina Rodrigues, juntamente com Guilherme Feliciano (on-line), apresentaram o painel sobre transição justa e empregos verdes

Injustiça climática e social

Participando de forma on-line, o Juiz do Trabalho Guilherme Guimarães Feliciano, que é professor-associado do Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Universidade de São Paulo (USP), ressaltou que é preciso clareza sobre quais empregos verdes o país deve priorizar. “É impossível dissociar a realidade das fábricas do meio ambiente natural, precisamos ter uma economia mais verde que considere as consequências econômicas e sociais”. Ele citou o caso dos cortadores de cana-de-açúcar, que sofreram os efeitos da mecanização sem qualquer plano de adaptação. “Sem uma política pública de requalificação e aproveitamento desse trabalhador, gera-se desemprego. A mecanização diminuiu as emissões de carbono, mas tivemos um impacto social terrível na ponta mais fraca, que é o trabalhador”, confirma.

Regina Rodrigues, pesquisadora e professora doutora do curso de Oceanografia na UFSC, destacou que o Brasil tem vantagens únicas para liderar a economia verde, mas esbarra na falta de políticas públicas consistentes. “Se parássemos com a especulação imobiliária e o desmatamento, estaríamos em posição de liderança em economia verde. O desmatamento é hoje o maior emissor de carbono com a queima de combustíveis fosseis, freá-lo seria mais eficaz do que tentar substituir rapidamente toda a matriz energética”, defendeu.

Ela lembrou que os efeitos climáticos já estão se acelerando. “O que se projetava para 150 anos, hoje ocorre em 20 ou 30. Isso impacta diretamente a produtividade do trabalho, com aumento de estresse térmico e problemas psicossociais”, acrescentou.

Professora Regina fala do aceleramento dos efeitos climáticos de forma global e no Brasil
Professora Regina fala do aceleramento dos efeitos climáticos de forma global e no Brasil

Segundo a Procuradora Regional do Trabalho Márcia Cristina Kamei López Aliaga, em torno dos trabalhos verdes houve uma evolução conceitual, hoje não apenas se presta a questão ecologicamente correta, mas ao trabalho decente. “É necessário que os trabalhos verdes se alinhem ao trabalho decente, com impacto na saúde dos trabalhadores e trabalhadoras, e isso estará diretamente associado ao combate ao trabalho escravo e ao trabalho infantil”, afirmou em citação a Olívia Pasqualeto, professora e pesquisadora na área de Direito do Trabalho. Ela também relembrou, em linha com o juiz Feliciano, o impacto da mecanização do corte da cana. “A questão ergonômica já advinda do trabalho manual impactava gravemente a saúde desses trabalhadores, levando muitos a óbito antes dos 30 anos, em razão de problemas cardíacos decorrentes das condições de trabalho”, dado presente em decisões trabalhistas pelo MPT em Campinas.

Márcia Aliaga abordou o conceito de Trabalhos Verdes e sua aplicação no mundo do trabalho
Márcia Aliaga abordou o conceito de Trabalhos Verdes e sua aplicação no mundo do trabalho

Racismo ambiental e desigualdades

A partir da esquerda: Hermano de Castro, Marcelo Dal Pont, Roberto Guglielmetto e Cirlene Zimmermann falaram no painel sobre racismo ambiental
A partir da esquerda: Hermano de Castro, Marcelo Dal Pont, Roberto Guglielmetto e Cirlene Zimmermann falaram no painel sobre racismo ambiental

Em seguida ocorreu o Painel "Mudanças climáticas e racismo ambiental: saúde e equidade nas relações de trabalho", com a presença do professor doutor Hermano Albuquerque de Castro, da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), da Procuradora do Trabalho Cirlene Luiza Zimmermann, atual Coordenadora Nacional da CODEMAT/MPT, e do Desembargador do Trabalho Roberto Luiz Guglielmetto, do TRT-SC. O painel teve a moderação do Procurador do Trabalho Marcelo Martins Dal Pont, Coordenador Regional da Comissão Socioambiental da PRT 12.

O Professor Doutor Hermano Albuquerque de Castro iniciou a palestra com dados do Relatório Especial sobre Mudanças Climáticas e Saúde da OMS, que relacionam mudanças climáticas e saúde pública. “Temos 84,16 dias de vidas perdidos devido às mudanças climáticas, que se distribui de forma desigual em regiões geográficas e grupos sociais”, comprova.

Segundo ele, o estresse térmico tem impactos severos na capacidade laboral. “Estamos falando de exaustão, desidratação, câimbras, golpes de calor, risco de acidentes e queda de produtividade”. Segundo pesquisas apresentadas por ele, os mais atingidos são justamente os trabalhadores negros e periféricos, expostos aos riscos ambientais sem proteção adequada. “A saúde pública não pode ser mais pensada sem a dimensão climática. Precisamos de ações coordenadas e imediatas para garantir um futuro seguro e justo para todos”, finaliza.

A Procuradora do Trabalho Cirlene Luiza Zimmerman reforçou a necessidade de enxergar os impactos climáticos sob a ótica da interseccionalidade. Em sua fala, citou a "Projeto de Lei da devastação" e as instalações de uma central de dados (Data Center), projeto bilionário para geração de Inteligência artificial em Eldorado do Sul, região afetada por enchentes no RS. “Isso interessa a quem exatamente? As mudanças estão sendo sentidas, mas não de forma igual, enquanto a população sofrerá com falta de água, o empreendimento consumirá enormes volumes do recurso”, criticou.

 Procuradora Cirlene Zimmerman avalia os impactos climáticos sob a ótica da interseccionalidade
Procuradora Cirlene Zimmerman avalia os impactos climáticos sob a ótica da interseccionalidade

Ao final, destacou os setores com maior presença de pessoas negras, os trabalhos informais que expõe o trabalhador a situações degradantes, a transição energética com o lítio e a questão da transição justa. “Precisamos de proteção social para ajudar as pessoas a se adaptarem a lidar com os choques relacionados com o clima, com benefícios de proteção social, segurança de renda e o acesso a cuidados com a saúde”.

Encerrando o evento, o Desembargador do Trabalho Roberto Luiz Guglielmetto falou sobre a importância da Justiça do Trabalho no enfrentamento dos impactos climáticos. Ele mencionou as iniciativas do Programa Trabalho Seguro, que atua há mais de dez anos, e reforçou a necessidade de diálogo entre o Direito do Trabalho e o Direito Ambiental. “É fundamental incorporar os princípios de prevenção, precaução e justiça climática em nossas decisões. A Justiça do Trabalho tem papel importante nesse contexto de promoção de trabalho digno, em todos os seus programas institucionais”, concluiu.

Desembargador Roberto Guglielmetto
Desembargador Roberto Guglielmetto

 

Assista na íntegra

Painéis do dia 21/08

Período da manhã (link externo)
Período da tarde (link externo)

Painéis do dia 22/8 (link externo)

 

Fonte:  Assessoria de Comunicação MPT-SC

(48)32159113/ 988355654/999612861

Publicado em 21/08/2025

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